vontade. querer. força

12 11 2007

Vontade. Querer e Força. Caminhavam até depois da curva. Horas daquela manhã passaram eles de mãos dadas. Psicoticamente esquecerem do mundo e de suas regras. Então nesse dia morreram os seres. Um estranho Fim de Mundo, depressivo, sim, mas fim com desejo de suicida.

Lá estavam todos diante do mar. Na água alguns fariam um novo lar, terminariam sem esquecer, enquanto eu voltei junto com minha paciência. Outros também a tinham, mas preferiram seguir com o Resto. Fiquei diante da cena: s3ntimentos que se separaram do corpo. Eles andavam juntos. Senti o vazio que ocupava o lugar da Força. Aqueles dois outros não reconhecia tão bem. Estavam a me olhar. Admiravam-me? Talvez torciam.  Talvez nada.

O caranguejo me cumprimentou na areia da praia. Posso sentar-me contigo? Como os grãos espalhados nada sentiam, deixei. Possuía prestigio? O que significavam aqueles olhares? Quem me buscava além desses? Provavelmente aqueles corpos no Mar. A chuva também clamava um nome bonito. Não era meu aquele som. Eu escutava o inaudivel. Esperei até os outros esquecerem da morte, esquecerem seus valores, matarem a vida para poder aprender sobre ela. Não precisei fazer o mesmo: morria sempre.

e ali também morri. Com minhas partes que não em pertenciam, morri aquilo que era meu e não estava em mim. Matei, porque eu deveria ser aquilo que dos outros roubava. Era Vontade, era Querer, era Força: todos em mim. Morreram todos, conclui. Já que os avisos sentimentais tomavam-me, implodidos por dentro, só pude imaginar que eles haviam desistiam de me olhar. Não era torcida, nem nada: me enganei com aqueles olhos. Gritei tanto. Procurei pelos outros. desesperei-me. Era eu finalmente. Eu e mundo. Querer. Então soube tudo.

Vergonha? Eu era a última depois do homem de verde que buscava comida com caranguejo. E não devia ter sido daquele jeito, mas bastou minha hesitação, bastou virar o olhar aos três, bastou aquela autoconfiança. Bastou achar que o mundo seria (m)eu e eu seria (d)ele. Meu medo revelou-se nos gestos. Enquanto a paisagem permanecia a mesma, deixei de sentir. Lembrei de tantas coisas. Do filme de amor entre anjos e humanos, da primeira vez no divã, de um livro antigo que em fez feliz, do choro que invocava a infância e do dia em que pude matar e desistir. Não me arrependi de ter ido até o fim do hoje.





a garota da coca-cola

12 11 2007

Lá estava a coca-cola. Nunca gostou daquela tampa verde. Ligth? Quem dizia que ela precisava emagrecer era o pai. Sempre obediente à sua própria maneira. O era sem que ele soubesse. Não se exercitava por vingança. Até perceber que sua vingaça era um ódio muito preguiço, uma forma de dor. Aquela relação tinha algo de doentio, sabia. Patologico. Só que não entendia dessas doenças clínicas. Estudava, identificava-se, procurava-se. Mas ela estava apenas dentro de si, e só eles dois não sabiam disso.

E veio então a época em que sistematizava. Tudo? Não sei. Em algumas coisas não posso interferir, é melhor que ela descubra por si só. Não como aconteceu em sua última sessão na terapia. “Quer dizer que eu não sou ainda!?”. E ela sentia-se estranha por sentir sentimentos tão antagônicos. Por um lado, o alívio era automático, era imprescindível. Talvez ainda seja. Ela não revelará. Sempre foi indefinida e o fato de “não ser ainda” a aliviava por fazê-la permanecer nessa posição. Um dia mudará. E ela terá de arrumar um outro tipo de mistério. Desesperar-se-á, acredito, e sua coragem é tão falha, tão artificial. Como ela se mantém estável é uma incógnita. Só que, por outro lado e também, ela sentia-se frustrada. Teria sido, então, todo aquele trabalho de autoconhecimento em vão?

Mas aquela mulher se atreve. Disse-lhe: não és! Ainda, ao menos! Que consolos inúteis não? Conselhos?! E aquele sentimento se expandia. Alastrava-se em seu corpo. Teria ela raiva por que? Entendia ser verdade. E como poderia aquela com quem se encontrava apenas casualmente conhecer-lhe melhor que ela mesma, que passou tempos em busca de si? Sim, sim, na verdade era tudo inveja o que sentia dentro desses questionamentos. Eis uma pessoa que a sabia melhor. Eis alguém que soube defini-la deixando-a em aberto: “defino-te como indefinida”. Sem as esterilizações, sem caixas, sem etiquetas. “Seja!” Seria difícil aceitar. Aquela garota era egoísta demais para se mostrar aos outros. Principalmente sendo eles mudos de si. Orgulho maior que o próprio ego. Corroído, na verdade, estava este último.

E ela tem de concordar comigo. Se existia um doença visível, era a neurose. Era apenas uma fingida psicótica, sabendo que sua essência se destruía seguindo tantas regras. E aquela mulher, naquela manhã, soube disso comigo. Soube como ninguém que seu medo era de si. Soube de suas intenções. E ali, sentada no chão do corredor a garota da coca-cola, detestando o cheiro de si, concordou com shopenhauer: não há nada depois da vida e, antes dela, “eu nunca fui”.





sem lápis

12 11 2007

todos os outros são molduras. eu, quadro, pintura, imagem. numa parede opaca do quarto esquecido, me penduro. escondida imagem pouco palatável. quem nela se reconhece? a exposição encontará seu briho sem obras de arte, já que estamos na pós modernidade. sem saber se classifico-me como banal ou singular, espero que alguém veja nada em mim. por que eu, eu quero ver escuridão, quero brotar nas pedras. ser futuro agora e esquecer lembranças depois. não fugir. a verdade é que não sei o que acontece quando me esquivo. não sei de muitas coisas que fingo ser especialista. preciso, agora, enxergar-me como nada. preciso ser nada por instantes. para desestituir as hierarquias. quero me levar àquele quarto onde pendurei essa imagem tosca de mim. tirar a moldura tão barroca e explicar cada pingo da tela.





qualquer outra ilusão

12 11 2007

repetindo, repetindo, repetindo. discos riscados. músicas sem significado. em si, tudo estava nu. a transparência obtida horas atrás enquietou, escureceu. indagar novamente para dar luz às certezas. dores normais, as constumeiras. parto? teria então de ter nome a vida expelida.

olhar, olhar, olhar. o enxergado gratifica o suposto, confirma uma hipótese. de onde tiramos o entendimento? em qual lugar se guarda o esquecimento?





nova seita

12 11 2007

como você quer que eu seja?
ser sujeito de si
isso é uma seita?

porque você quer que eu seja?
veja, se eu não sou
o que você deseja
pra que você insiste, pede e anseia?

que eu seja?
que eu veja?
quer que eu me perca, não sinta e agredeça?

como você quer que eu seja
se todos os meus picos
foram construídos
com as pedras que recolhi
pelo caminho que mandaste trihar
como você quer que eu continue
se tudo que aprendi contigo
cala, finge, espanca, ara e mata?

quem mais você quer que seja
se eu sou você?