Arquivo da categoria: ar e água

quantum amor

transpiro.
o movimento é tão cíclico quanto o estelar.
dando voltas por sobre o sair e entrar no indefinível campo da percepção.

transpiro:
suor sobre a pele,
água brotando do meu corpo
avisando… (o que seja!)

transpiro! é o que percebo!

suar a pele

e, ao ouvir isso,
ter o corpo invadido por uma sensação de lembrança
(apesar de nunca nenhuma primeira vez ter acontecido)

negar pecados a todo custo
faz medo brotar feito água na pele
quando somos confrontados e julgamo-nos em perigo

milhões de microsentimentos brobulham numa panela fervente
durante todo o microsegundo em que existem
o calor da panela, do corpo, transforma isso em tesão e demos nome de amor

amor não é nada mais nobre que isso
micros segundos de micros entimentos
tem quem diga pecado
e condene um amor bem feito

só por se ter apalavreado, decretou-se uma existência
amor acontece quando o universo transpira
inspirando lábios para a dança
de eternos big-bangs

um indefinido quantum disso pode pesar mais que o seis conhecidos sóis inteiros
o google contou


documento do acaso

à disponibilidade do corpo
a alma se submete, inclinando-se diante da consciência.
da invenção da razão apagou-se a data
e diz-se sempre
e disse sempre que podia
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eu é apelido de equilíbrio

personalidade tem a medida da corda bamba
onde o bailarino repousa em desespero
navegando para socorrer aos apelos de dentro

a linha mais fixa não é o tempo
este, fino e flexível como mato novo, pronto a despedaçar-se
apodera-se do corpo inteiro, apreendendo-o em sua jaula particular
o tempo soube comandar o mundo
destitua-o, por obséquio
ou as grades se degradarão como efeito de sua presença
agora, o tempo não está presente
porque um eu fora-de-controle
avança loucuras bárbaras
e contamina os trabalhadores

a psicose virou trauma
trate de chapar sua alma

entre uma idéia e a nova
um retrato e o próximo
nossas nuvens de retalhos
(as pistas estão nos recados)
podem tecer de incerteza
todo o passo-a-passo

o ponto de equilíbrio nunca é o mesmo
por muito tempo
é o mesmo o tempo todo
como eu


corações ao avesso

o cheiro dela ficou na minha pele
e na cor do amanhecer

só a lembrança dela desintoniza-me
desse carnaval

já fui mais honesta com os olhos
agora recuo
usando palavras

tinha coisas que a gente dizia se olhando
e não soube significar
e, por acaso, transtorno ou destino
esses olhares não se encontram mais

é preciso sorte, coragem, criatividade e mistério
para transgredir as leis do tempo e florescer amor


exposição

é como se só a solidão conseguisse me ver por completo.
todo mundo tem um pedaço que não mostra a ninguém.
prazer, este sou eu.
tantas tiveram perto dele, mas nunca sequer o vislubraram,
pois sua condição é a invisibilidade social.
a associação livre me condena mortalmente
unicamente porque não me alcança!

respiração me ataca em cheio
e algumas conseguem, sim, alterar-me na respiração
fazer o coração bater mais forte, mais fraco.
mas essa intensidade
ainda não chega à minha presença

meus limites intransponíveis
e inexpressáveis
despresíveis e gloriosos

precisamos admitir que
somos todos os nãos e preconceitos

eu sou a puta da conselheiro
porque sinto do mesmo jeito
apesar de usar palavras diferentes

sou initeligíel até para mim mesmo
existo no eu a que me refiro e pronto
estou tão sozinha que não me encontro
para oferecer-te novo pedaço
se te beijo… me perdoa?
enlouqueço! não é como soa?

foi isso que eu quis e não te expliquei
como ía ultrapassar a pele
e chegar na voz?
tenta atingir a velocidade de onda na partícula
e tuas ondas quebrarão na areia

nas sublinhas do cotidiano
que me sufocam
são entrelinhas do insano
mordendo

nesse inverno chuvoso
gelando a espinha
e causando calafrios

se eu te magoo
ou cultivo ferida, a
dívida é quantos mil?

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é água colorida caindo do céu

a chuva domincal me beijou bom dia
(instante vago para tornar memória)
vestida de lembrança a chuva se transforma
linda, suave, molhada
em mim;
eu, nela

mas tudo que é tão pertinente esvai-se
posso dançar na chuva
pulando as poças
vagos são os intantes que transformamos em identidade

apaixonar-se pela chuva é mera loucura
não se compete com a noite ou a lua

então, sorria se a chuva te beija
e, dançando, agradeça-lhe
a natureza vive esse eterno clima de paixão absurda
ao som de ventania, pássaros e insetos
basta sussurrar a melodia junto
viver em harmonia soa como uma conhecida canção de ninar


saudações ao verão

Inter-vir

algumas flores só acontecem uma vez por vida
por isso é preciso trocar a máscara a cada colorir de carnaval:
para espalhar pólen na atmosfera

sorrigos gargalhados
toques vespertinos
o cheiro de verão marca a despedida da primavera
logo virão chuvas, coração
doces lágrimas caindo de Deus
lembrando que algumas flores só acontecem uma vez


pedra no sapato

calo é uma adaptação do corpo e da alma

calo
diante de temas polêmicos com uma garrafa de vodka
calo 
tocando a expectativa que teu olhar nem demonstra

toque onde calo
para ultrapassar a pele

quando o sangue ferve
posso estar no melhor beijo
ou na maior briga
todo calo acontece depois de uma ferida

na superficialidade calejada da fala
nada chega a mexer com os sentidos


lógica entre quatro paredes

Como adivinhar se sabemos apenas os fragmentos das letras com que nos comunicamos?
Faz sentido o que chamamos de sabedoria?
Complete todas as lacunas com o óbvio
e chegarás a uma lógica

mas é um abraço que silenciosamente se pede
com aquele olhar de cumplicidade que o precede
adivinha
e elimina tudo o que envelhece, entorpece e
cede… às regras do jogo

negue
ou me chame de grosso
filho da puta é você, que não sabe ser cúmplice

cadê tua sensualidade?
swinga aqui, entre quatro paredes
entregue-se sem distinção
não se interrompe prazeres
com o sabor ainda fluindo no corpo inteiro

quando não digo nada é o instante em que meus olhos mais comunicam
toca pra entender com outros sentidos


o mapa de baixo

as ruas não sabem dizer onde estou

estacionei os planos
retirei a bagagem
pedi parada
e o ônibus queimou

é como se nada passasse pela cabeça de quem ama
abre alas, é carnaval
estou indo à Portugal
é… como quem ama, estou até me fingindo de santa
saudosismo natural

nossas fotos no mesmo lugar
o mesmo luar pra chamar de outro nosso

como se essa fossa não fosse foda de aguentar
flores você me dá


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