a garota da coca-cola

12 11 2007

Lá estava a coca-cola. Nunca gostou daquela tampa verde. Ligth? Quem dizia que ela precisava emagrecer era o pai. Sempre obediente à sua própria maneira. O era sem que ele soubesse. Não se exercitava por vingança. Até perceber que sua vingaça era um ódio muito preguiço, uma forma de dor. Aquela relação tinha algo de doentio, sabia. Patologico. Só que não entendia dessas doenças clínicas. Estudava, identificava-se, procurava-se. Mas ela estava apenas dentro de si, e só eles dois não sabiam disso.

E veio então a época em que sistematizava. Tudo? Não sei. Em algumas coisas não posso interferir, é melhor que ela descubra por si só. Não como aconteceu em sua última sessão na terapia. “Quer dizer que eu não sou ainda!?”. E ela sentia-se estranha por sentir sentimentos tão antagônicos. Por um lado, o alívio era automático, era imprescindível. Talvez ainda seja. Ela não revelará. Sempre foi indefinida e o fato de “não ser ainda” a aliviava por fazê-la permanecer nessa posição. Um dia mudará. E ela terá de arrumar um outro tipo de mistério. Desesperar-se-á, acredito, e sua coragem é tão falha, tão artificial. Como ela se mantém estável é uma incógnita. Só que, por outro lado e também, ela sentia-se frustrada. Teria sido, então, todo aquele trabalho de autoconhecimento em vão?

Mas aquela mulher se atreve. Disse-lhe: não és! Ainda, ao menos! Que consolos inúteis não? Conselhos?! E aquele sentimento se expandia. Alastrava-se em seu corpo. Teria ela raiva por que? Entendia ser verdade. E como poderia aquela com quem se encontrava apenas casualmente conhecer-lhe melhor que ela mesma, que passou tempos em busca de si? Sim, sim, na verdade era tudo inveja o que sentia dentro desses questionamentos. Eis uma pessoa que a sabia melhor. Eis alguém que soube defini-la deixando-a em aberto: “defino-te como indefinida”. Sem as esterilizações, sem caixas, sem etiquetas. “Seja!” Seria difícil aceitar. Aquela garota era egoísta demais para se mostrar aos outros. Principalmente sendo eles mudos de si. Orgulho maior que o próprio ego. Corroído, na verdade, estava este último.

E ela tem de concordar comigo. Se existia um doença visível, era a neurose. Era apenas uma fingida psicótica, sabendo que sua essência se destruía seguindo tantas regras. E aquela mulher, naquela manhã, soube disso comigo. Soube como ninguém que seu medo era de si. Soube de suas intenções. E ali, sentada no chão do corredor a garota da coca-cola, detestando o cheiro de si, concordou com shopenhauer: não há nada depois da vida e, antes dela, “eu nunca fui”.

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