Tem dias mais coloridos que outros

18 05 2011

Hoje de manhã, recebi o Diario de Pernambuco em minha casa. Dentro dele, li uma matéria em preto e branco sobre o que aconteceu. Achei uma iniciativa linda. Aí cheguei na rua e, eita!, tinham várias bandeiras coloridas nas capas dos jornais.

Só deus sabe onde mais a Primeira Parada Contra Homofobia na Universidade Católica de Pernamabuco ganhou espaço. Formamos uma roda gigante de ponta a ponta no hall do bloco G. Às dez da manhã, Lady Gaga invadiu a freqüência sonora, sucedida de La Roux e outras pérolas e hinos do mundo gay. As pessoas começaram a se aglomerar em baixo de uma bandeira gigante, armada desde o terceiro andar até o lado de fora do hall. Pra quem vinha da rua do lazer, era preciso cruzar uma exposição, onde crianças estavam apresentando trabalhos sobre coisas de colégio. Vários adolescentes de farda se aglomeravam na frente do protocolo, revezando olhares entre seus professores e a bandeira, segurando a curiosidade à força.

Num primeiro momento, não vi nenhum conhecido. Gelei. Parecia que eu tinha estampada uma bandeira do mesmo tamanho em minha testa. Que vergonha! “Que besteira”, logo retruquei-me a mim mesma. Tão difícil é o processo de aceitar-se quanto o de sentir-se aceito. Quão mais forte for a dose de medo, pior são as circunstâncias.

Medo nos faz calar, voltar atrás, fingir outro, fingir nada.

Comprei um café. Tomei correndo para ver se esquentava o corpo inteiro. Olhei todos nos olhos até encontrar um lugar seguro. E fui me pronunciando aos poucos, conversando com vários. Até chegar ao microfone tinha ultrapassado várias etapas.

Comecei perguntando à platéia de só deus sabe quantas pessoas, se tinha alguém tão estrangeiro quanto eu, que não estudava ali no local. Poucos levantaram a mão. Tirei o peso das costas, uma mochila pesada cheia de bagunças, e a câmera das mãos. A gente diz com o corpo todo, não é verdade? Eu precisei de Lia, uma amiga minha, do meu lado, senão não tinha falado nada. Não teria nem conseguido dar o primeiro passo. Era preciso dizer “vamos”, ao invés de perguntar “tu vai?”

Por isso é que fingimos ser uma luta. Porque alguns de nós, por estarem sozinhos, acabam aguentando risadinhas, piadas, comentários, olhares, descargas e disparos. Conheço pessoas que perderam a dignidade; outras, o rosto; algumas, a própria vida.

Mais fácil é agredir sem violência. E mais eficiente também. A palavra cala. O murro faz gritar. O assassinato faz rugirem os céus. É em nome de que Deus, que Lei, que Verdade? Em nome de que alguém sofre por amar?

É por casos singelos como os que aconteceram nos últimos dias que muitas pessoas não se sentem à vontade na nossa sociedade. Quando digo isso significa que você tem alguma pessoa próxima que pode estar namorando escondido, com medo de que você saiba ou do que você fará a respeito.

Muito tempo eu achei que minha irmã fosse homofóbica, mas depois entendi que a gente só não se dá bem mesmo, que sexualidade não tem nada a ver com a história. Precisamos conhecer as pessoas e aprofundar nossas relações sociais de maneira mais larga. Estamos sempre restritos ao nosso gueto, independente dele ser caracterizado pela sexualidade ou não. Há a tribo do reague, do rock, dos véio, do xadrez, dos ciclista, dos ricos e dos que se acham ou dos que consideram isso importante, dos crente evangélico, das putas feministas… Se não nos deixarmos conhecer, se não trocarmos experiências entre nós, viveremos cada um sob sua realidade, todos subjulgando uns aos outros.

Estamos alertando geral que a próxima minoria é você!

Só a confiança substitui o medo. Só pelo amor, se adquire confiança.

Educar pressupõe confiança. O primeiro pilar da educação deveria ser, portanto, o amor como gesto, como atitude. Depois viria o amor pelo saber, pela consciência, pela linguagem. O último pilar iria, em consonância com os outros, apoiar o fazer. As universidades estão preocupadas, entretanto, muito mais com a formação profissional que de fornecer ao educando ferramentas para que se adapte e se insira de maneira ativa na realidade onde esteja.

A função do Direito, como diz a ADF 178 aprovada por unanimidade no Supremo Tribunal Federal, “não é o de referendar qualquer posicionamento que prevaleça na sociedade, refletindo como um espelho todos os preconceitos nela existentes. PELO CONTRÁRIO, o Direito deve possuir também uma dimensão transformadora e emancipatória, que se volte não para o c,ongelamento do status quo, mas para a sua superação, em direção à construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária”.

É ensinando regras que educamos os alunos? Tive muita dificuldade na época de colégio para aprender matemática. Adorava português mas, eu mesma, pratiquei um ato homofóbico terrível a um professor da sétima série. No final da prova, onde ele escreveu “boa sorte”, retruquei por escrito “Não preciso de sorte, gaydison. Estudei.” E recebi de volta um quase zero, apesar de ter acertado todas as respostas. É que no início da prova, em letras minpusculas, dizia que mais de uma resposta assinalada anularia a questão. Sempre preenchia minhas provas riscando na horizontal as que eu considerava erradas e assinalando com um “x” a resposta certa.

Foi bem feito? Que educação esse professor me deu?

  

Hoje em dia, muitos professores ensinam as regras e esquecem das pessoas. Educar é um gesto de amor.

Dizer isso ao vivo e pra muita gente fez meus joelhos ficarem batendo. Nunca achei que fosse ser tão difícil assumir palavras simples diante de muitas pessoas, mas aqueles pequenos momentos pareceram uma eternidade rápida. Suspirei dois instantes, segurando os joelhos e voltei à multidão: Tô meio nervosa… Num sei se vocês tão vendo. E assumi o quanto era difícil assumir-se àquele modo. Parecia que eu tava dando a cara a tapa, na linha de frente de um grande pelotão. E perguntei aos olhares atentos porque fazíamos disso uma luta, uma guerra, uma bandeira, usando um tom reflexivo. Acho que ninguém espera resposta de verdade à questão.

Expliquei pra todo mundo que a pergunta não é “por que é tão difícil se assumir?”. É: “Por que a gente precisa se assumir, antes de tudo?” E nem esperei resposta. “É porque vocês pressupõem que todo mundo é hetero, até que se assuma o contrário”. Nesse processo de se reconhecer diferente, aceitar-se e se pronunciar muitos sofrem absurdos. Precisamos amparar as pessoas e, por isso, nos agregamos. Precisamos dizer “vamos”, ao invés de questionar “tu vai?!”

Vamos amar, então?

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4 responses

18 05 2011
Ananda Urias

Deby,
Bom saber e ler os seus atos de amor pelo mundo (por ter a coragem de escrever e mostrar ao mundo como você é maior) e por você mesmo, por lutar pelas suas verdades.
Errado é quem julga, quem se acha superior a qualquer pessoa, qualquer sentimento. Sei que Cristo não modificou o amor dEle por você, como cristã sou incapaz de julgar a sua escolha.. te amo da mesma forma de quando éramos pequenas e fazíamos discipulado juntas..
Um beijo enorme, conte sempre comigo.
Ananda Urias

18 05 2011
milena

que lindo, guarinha! eu queria ter ido :~ mas super te dedico um lindo beijo e abraço pela força que tu tens ;D

e sim, vamos todos nos amar!
;*

24 05 2011
Victor Jucá

botou quente guara..

você é fera, fera neném! :*

26 05 2011
código de honra « posto de gasolina

[…] feminina, assim como a violência não deve ser interpretada como algo másculo. Li no mural da Primeira Parada Gay que aconteceu na Católica no começo do mês algo interessante: “Bater em gay não faz de […]

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