a ideologia do medo

25 05 2011

Programação da Semana De Estudos Sobre Criminologia e Direitos Humanos

Fui hoje no Seminário que o Najupe tá promovendo desde segunda-feira. São dois temas por dia até quinta, um pela manhã, outro à tarde. Temas pertinentes e críticos. Criticamente atuais. Em quantos jornais você leu sobre isso? Quantos veículos comunicaram que estava acontecendo uma palestra que pretendia questionar os fundamentos das regras de noticiabilidade que comandam os jornais e sobre as quais eles fazem questão de manter sigilo? Imagine noticiar seus defeitos. Como o pesadelo de aparecer nu na frente de muitos e conhecidos.

A questão era: como comunicamo-nos quando sentimos medo?

Áudio da conversa sobre o assunto com os pesquisadores Patrícia Bandeira de Melo e Luciano Oliveira

Entendi que é na comunicação que a ideologia se constrói. Assistimos aos telejornais sem lembrar que William Boner e Fátima Bernandes estão emitindo uma opinião. Claro que não necessariamente a deles, mas, via de regra, a opinião tá lá sim: a do dono do veículo. Tanto ele fala quanto eu, que estou escrevendo esse texto e emitindo minha opinião. Faço isso desde a escolha da pauta, do que vou escolher para falar, até as palavras que uso e quem menciono para creditar veracidade às minhas palavras. Odeio o recurso às aspas. A musiquinha do globo ao vivo. Tan-tan-tan-TAN-TAN-TAAN-TAAN-TAAAN-TAAAANN-TAN!

E a notícia chega… rápido, olha! é importante, ui! cuidado! tragédia!

Medo. Mão no coração e na cabeça. Absurdo! Tira o cigarro da carteira. Volta pro reporter. Mais musiquinha. Acendo o cigarro.

A tensão ganha o público e prende a audiência. O jornal é mais uma novela cotidiana que acompanha a necessidade e a exigência de quem assiste.

Porque programas como Cardinot, João Kleber e , que introduzem com sensacionalismo a questão da violência, tem tamanho índice de audiência? Imagina se os grandes mitos do medo nordestino não tivessem sido inventados? No mínimo não teríamos uma das músicas que Chico Sciense tocou com Nação Zumbi, sem a Perna Cabiluda, inventada pelo jornalista Jota Ferreira na década de 70 no Brasil.

O jornalismo vive desses ajustes e acordos entre audiência e o espetáculo noticioso que constrói fundamentado na ideologia cultural do senso comum. Já percebeu que, como o jornal precisa falar pra todo mundo, principalmente os jornais televisionados, ele fala de uma maneira bem simples? Quase deturpa os fatos, tão miúdos de realidade que ficam.

Começa pelo quando. Nada velho vai pro jornal de hoje. Depois o que. Porque precisa ter relevância e render uma boa foto/imagens pra ir pra capa. Precisa vender. Aí vem a questão de quem, pra que se possa ajustar o que vai ser dito no como foi que aconteceu.

Uma vez li num jornal daqui da minha cidade assim: “MENOR MATA ADOLESCENTE”. De cara, me espantei. Impressionei-me comigo mesma, pois na mesma hora em que li menor e adolescente estava estampado diante dos meus olhos e sensação a realidade social, econômica e histórica de cada um. Não precisava saber seus nomes e fatos.

O jornal nos tece uma aparente verdade sem costuras aparentes. É bem confortável.

Posso fazer um seguro para quando for roubada.

Mas não se faz um seguro contra ignorância. Você pode estudar a vida inteira e continuar adaptando-se à realidade sem nunca se inserir nela, nunca questioná-la. Pode viver com medo pra sempre.

Ou… pode ler um jornal diferente por dia. Quem sabe produzir suas prórpias notícias sobre o seu dia-a-dia.

Sugiro que deixem uma indicação de leitura nos comentários.

**

Outras coisas/referências:

Texto de Ivan Moraes Filho, do Bodega<, sobre o assunto

(Documentário sobre a Perna Cabeluda)
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=3600&Exib=1

(Programas como Cardinot)
http://www.band.com.br/entretenimento/tv/conteudo.asp?ID=298282

(Roda Viva – Uma agenda para o medo)

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